quinta-feira, 16 de novembro de 2017

fecho todas janelas para os pingos de água não entrarem
mas também não entra ar e nem alívio

estou trancada e sufocada dentro da minha casa

quando não para de chover nunca

sem novidade alguma, chove lá fora
tem chovido muito ultimamente, toda semana
e chuvas fortes, que deixam o dia anterior quente demais
e o dia seguinte úmido demais

então temos esse ciclo, uma chuva
uns dias insuportáveis de quente
muito vento, não permitindo abrir janelas
apesar do dia muito muito quente
e então chuva, tão intensa que bate nos vidros da janela do meu quarto
e me assustam
e não me permite que as abra, e deixe a brisa da chuva entrar

e é mais um dia quente demais
como a maioria deles são
não adianta nada reclamar, mas reclamar é necessário
o que mais eu comentaria se não fosse o óbvio?

quarta-feira, 15 de novembro de 2017

- sobre escrever

I
discordo
o tempo todo
quando alguém ainda lembra que um dia já escrevi

recordo
o tempo todo
que as palavras são o meu único refúgio

II
as palavras não são capazes
de representar tudo o que eu sinto
eu mesmo, não consigo sentir o que eu sentia

mas, ainda assim, são as palavras
e suas imagens, que são capazes
de fazer sentir um mundo que nem é meu.

II
escrevo por não estar bem resolvida comigo
então tenho um tempo pra discutir o que acho
o que sinto e preciso
escolher de forma racional as palavras que dizem o que eu não sei o que significa
que está aqui dentro
e esperar que tudo se resolva
com o tempo - gasto com as palavras
I
tristemente me sentindo completa
enquanto tudo desmorona
aos redores e dentro

ninguém vê
enquanto quebro
e me completo

II
Era uma vez e eu sabia o que fazer
e onde ir
e pra quem perguntar caso não soubesse, então

Era uma vez e eu não tinha muita certeza sobre quem eu era
mas eu sabia onde eu devia estar
eu sabia o que eu sabia,
e meu potencial

É então uma vez
e eu sei o que e com quem tenho que lidar todos os dias
mas não sei para onde essa então conhecida está indo
e por que não está indo para onde sabia,
quando era uma vez,
que deveria ir.

terça-feira, 24 de outubro de 2017

I
enquanto durmo descanso da ficção
enquanto acordada descanso de existir

II
sonhando acordada
quem diria seria
problema

evitando o sonho realizar

criando outros

quinta-feira, 27 de julho de 2017

sábado, 22 de julho de 2017

O CASO DAS CAIXAS DE PAPELÃO NO ESTACIONAMENTO

            Sete da manhã, desci ao estacionamento. Entrei no carro e saí. Estava a dois minutos de casa quando percebi que havia esquecido de pegar uma pasta. Andando rápido, entrei no prédio, e estava correndo para fora do portão quando percebi que havia uma caixa na minha vaga. Dei de ombros, e continuei meu dia, e de noite a caixa não estava mais lá.
           
            Sete da manhã, saí de casa. De noite, ao voltar, havia uma caixa na minha vaga. Dei de ombros, coloquei ela para o lado, não sem antes olhar o que tinha dentro dela. E não tinha nada. Então, estacionei o carro, e eu iria pegar a caixa para jogar no lixo, caso a caixa não tivesse sumido. Estranho. Dei de ombros, tomei um banho longo e calmo, antes de jantar. Na hora de dormir, imagens de caixas de papelão como a do estacionamento passavam pela cabeça.

            Sete da manhã, era sábado.

            Sete da manhã, era domingo.

Sete da manhã, estacionamento. Haviam três caixas em cima do meu carro. Eu teria que conversar a respeito disso. Joguei raivosamente as caixas para o lado. Então saí para o trabalho.
De noite, ao chegar, arrumadas uma ao lado da outra, várias caixas de papelão. Todas vazias. Chorei de frustração e deixei o carro no meio do corredor.

Sete da manhã, meu carro estava cheio de caixas de papelão dentro. Isso definitivamente estava indo longe demais. Havia conversado com todos os outros três moradores dali, e nenhum sabia a respeito de caixas de papelão. Isso era bem estranho. Alguém estava querendo me irritar muito.
“Aviso se ver algo de estranho! Mas são só caixas, são inofensivas”, disse Marilene. “O fato de elas aparecem sem motivo nenhum não lhe parece estranho? Alguém tentando roubar os apartamentos?” respondi, “na verdade, só a possibilidade de ter alguém conseguindo entrar aqui com tantas caixas, e aparentemente sem precisar forçar nada já é algo bem estranho! Podemos estar todos vulneráveis!” Mas Marilene riu de mim, pare de ser boba.
“Várias caixas? De papelão? Não vi nada não. Mas, hm..., eu preciso de algumas para colocar alguns papéis para descarte. Quando aparecerem, por favor, guarda uma ou duas pra mim, sim?” disse Emanuel, e eu resolvi rir educadamente e acenar com a cabeça antes que eu perdesse toda a minha calma.
“Caixas misteriosas? Bem, não há nada dentro que posso machucar as crianças? Elas brincam lá em baixo o tempo todo. É estranho, não vi nenhuma caixa nos últimos dias. Mas irei dar uma olhada mais frequente. Se houver algo que possa machucar as crianças...” disse Paula e eu respondi com “algo ou alguém...”, o que a espantou e “nem pense nisso! Deve ter uma boa explicação para isso! Mas recomendo você procurar a polícia. Imagina que pavor se acontece algo!”.
Não era hora de colocar a polícia no meio, não ainda. Ainda eram apenas caixas de papelão aparecendo misteriosamente na minha garagem sem que mais ninguém estivesse vendo. Considerei fortemente a ideia de que eu estava ficando louca.
E depois de rir sozinha e chorar junto, e intercalar essas duas coisas, e tomar uma taça de vinho, aceitei essa teoria.
Mas eu ainda havia tentando entrar no carro e elas estavam lá, todas! Tanto que eu pedi uma carona! Mas estar louca, bem, era algo a se considerar.
Mas não, por hora nem polícia nem psiquiatras. Uma boa noite de sono. Amanhã tiramos providências.

Sete da manhã, ninguém no estacionamento.
Sete e sete, Paula e as crianças no estacionamento, saindo para um dia de escola e trabalho. Paula olhou brevemente a vaga ao lado, mas havia apenas o carro.
Sete e vinte, Emanuel e seu carro. Verificou se não havia nenhuma caixa de papelão que pudesse usar para colocar seus papéis. Não, nenhuma. Iria pedir no mercado, deveria anotar isso, não esquecer.
Oito e quarenta Marilene saiu para uma caminhada. Iria tomar café da manhã com uma amiga, que morava uns dez minutos longe. Tomariam demoradas xícaras de café e conversariam.

Haviam passado alguns dias, e não haviam sinais de caixas, nem histórias de caixas e nem da própria pessoa preocupada com as caixas. Então, todos resolveram arrombar a porta, uma vez que o carro estava no mesmo lugar de sempre, então, bem, ela não havia saído dali.
Arrobaram a porta e não se surpreenderam com o que viram.
Por acaso, dezenas de caixas caíram ao abrirem a porta, e todo o resto do apartamento era caixas de papelão. Após uma rápida tentativa de entrar, perceberam que não havia como e chamaram uma empresa de reciclagem de papel para retirar o material dali.


Ninguém nunca mais ouviu falar na moradora daquele apartamento e as caixas não voltaram a incomodar ninguém.